*Sítio oficial de O.M.
Homenagem de C.S.
Homenagem de W.F.





Despe
Orpheu
O
Véu
Do
Samba...









CLARA SCLIAR,
semióloga carioca, faz parte da Cia. Imago Dei, agrupamento luso-brasileiro dedicado a estudos teatrais abertos.
Aos que se interessarem:
http://www.rosadostempos.hpg.ig.com.br
(concepção e foto de Gabriel Salgueiro, Lisboa - 2002)




DO ORFISMO
NA ESTILÍSTICA
DE OTACÍLIO MELGAÇO


PARTE I

DO MITO

Orfeu, o filho da musa Calíope, era o mais talentoso músico que já viveu. Quando tocava sua lira, os pássaros paravam de voar para escutar e os animais selvagens perdiam o medo. As árvores se curvavam para pegar os sons no vento. Ele ganhou a lira de Apolo; alguns dizem que Apolo era seu pai.
Orfeu era casado com Eurídice. Mas Eurídice era tão bonita que atraiu um homem chamado Aristeu. Quando ela recusou suas atenções, ele a perseguiu. Tentando escapar, ela tropeçou em uma serpente que a picou e a matou.
Orfeu ficou transtornado de tristeza. Levando sua lira, foi até o Mundo dos Mortos, para tentar trazê-la de volta. A canção pungente e emocionada de sua lira convenceu o barqueiro, Caronte, a levá-lo vivo pelo Rio Estige. A canção da lira adormeceu Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões; seu tom carinhoso aliviou os tormentos dos condenados.
Finalmente Orfeu chegou ao trono de Hades. O rei dos mortos ficou irritado ao ver que um vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua mulher Perséfone, implorou-lhe que atendesse ao pedido de Orfeu. Assim, Hades atendeu seu desejo.
Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos. Mas com uma única condição: que ele não olhasse para ela até que ela, outra vez, estivesse à luz do sol.
Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração enquanto caminhava, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele não olhou nenhuma vez para trás, até atingir a luz do sol. Mas então se virou, para se certificar de que Eurídice estava seguindo-o.
Por um momento ele a viu, perto da saída do túnel escuro, perto da vida outra vez. Mas enquanto ele olhava, ela se tornou de novo um fino fantasma, seu grito final de amor e pena não mais do que um suspiro na brisa que saía do Mundo dos Mortos. Ele a havia perdido para sempre. Em total desespero, Orfeu se tornou amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo se lembrar da perda de sua amada. Furiosas por terem sido desprezadas, um grupo de mulheres selvagens chamadas Mênades caíram sobre ele, frenéticas, e o despedaçaram.
Jogaram sua cabeça cortada no Rio Hebrus, e ela flutuou, ainda cantando, "Eurídice! Eurídice!"
Chorando, as nove musas reuniram seus pedaços e os enterraram no Monte Olimpo. Dizem que, desde então, os rouxinóis das proximidades cantaram mais docemente do que os outros. Pois Orfeu, na morte, se uniu a sua amada Eurídice.
Quanto às Mênades, que tão cruelmente mataram Orfeu, os deuses não lhes concederam a misericórdia da morte. Quando elas bateram os pés na terra, em triunfo, sentiram seus dedos se espicharem e entrarem no solo. Quanto mais tentavam tirá-los, mais profundamente eles se enraizavam. Suas pernas se tornaram madeira pesada, e também seus corpos, até que elas se transformaram em silenciosos carvalhos.
E assim permaneceram pelos anos, batidas pelos ventos furiosos que antes se emocionavam ao som da lira de Orfeu, até que por fim seus troncos mortos e vazios caíram ao chão.

PARTE II

DO ORFISMO PROPRIAMENTE DITO

Ao que tudo indica,Orfeu foi um poeta trácio de grande habilidade musical e um místico de grande carisma, mas cujos traços históricos estão para nós completamente perdidos, a não ser pelas lendas e mitos que nos chegaram a seu respeito, transformando-o num semideus. Já no século VI a. C. o poeta Ibico falava de "Orfeu de nome famoso", testemunhando a grande notoriedade que Orfeu usufruia em toda a cultura helênica, e que só se explica pela existência de um fundador carismático e pela difusão do seu movimento religioso. Eurípedes, Platão, Heródoto, Aristófanes e Aristóteles nos deixaram escritos sobre o orfismo, e sabemos o quanto Platão deve aos mistérios órficos em sua filosofia, especialmente no que concerne à doutrina da reencarnação. É bem provável que o homem Orfeu tenha tido uma forte influência mística na cultura grega no início do século VI a.C.

A religião pública na Grécia e os Mistérios Órficos

A religião exerceu uma profunda influência na gênese da filosofia grega, e, por conseqüência, na filosofia ocidental. Mas quando se fala da religião helênica, se faz necessário distinguir entre a religião pública, que teve seu modelo na representação dos deuses e do culto que foi legado por Homero, e adotada pela maioria da população pela sua simplicidade explicativa dos fenômenos naturais e humanos,antropomorfizando-os, e a chamada religião dos mistérios. Apesar de serem religiões com pontos em comum, há importantes diferenças entre estas duas formas de religiosidade (como, por exemplo, a concepção de homem, do sentido da vida e o destino último da alma humana). Ambas as formas de religiosidade são fundamentais para a gênese da filosofia grega, mas a segunda forma se destaca muito mais nesta gênese que a primeira.

Nem todos os gregos consideravam críveis ou aceitáveis os pressupostos da religião pública, recheada de deuses bastante humanos. Por isso, em círculos restritos, desenvolveram-se os chamados "mistérios", com elementos da religiosidade oriental, tendo suas crenças mais logicamente enlaçadas e seus próprios rituais reconhecidamente simbólicos e com forte conteúdo arquetípico-psicológico. O orfismo é particularmente importante porque introduz na civilização grega uma nova interpretação da existência humana (Reale & Antiseri, 1990). Enquanto a concepção tradicional, desde Homero, considerava o homem com uma alma desconhecida, que se perdia na região do Hades após a morte, quase como um fim total da existência humana, o orfismo proclama a imortalidade da alma, sendo esta o que dá a personalidade do homem, herdeira de uma história e de um trajeto evolutivo, sempre se aperfeiçoando nesta e em inúmeras outras vidas, até que consiga se assemelhar ao máximo a Deus.

Os principais elementos da doutrina órfica são:

a) No homem há um princípio divino, uma alma que caiu em um corpo para corrigir uma imperfeição.
b)Essa alma não só preexiste ao corpo como também sobrevive a ele, estando destinada a reencarnar em corpos sucessivos até que consiga depurar-se das imperfeições e dos erros que a fazem voltar ao mundo.
c)Com suas práticas e ritos simbólicos, o orfismo buscava despertar no homem a compreensão destas verdades, ajudando-o a tomar consciência do que e quem ele é, e motivando-o a tomar ânimo para ter o total controle de sua vida, aperfeiçoando-se e pondo fim ao ciclo das reencarnações - temos aqui, de alguma forma, um eco dos ensinos budistas.

Conhecemos algumas máximas órficas, que nos chegaram através de fragmentos encontrados em tabuinhas e em tumbas pertencentes a seguidores da doutrina. Algumas dessas máximas resumem muito bem o núcleo central de sua doutrina:
"Alegra-te, tu que sofreste a paixão: antes, desconhecias o que era o sofrimento. De homem, nasceste Deus!".
"Feliz e bem-aventurado, serás Deus ao invés de um mero mortal! De homem, nascerás Deus, pois és filho do Divino!"
De um modo geral, a mensagem órfica é a de que todos somos deuses, por herança divina, e deveremos voltar a estar junto de Deus.
(São de Carlos A.F. Guimarães as explanações acima.)

PARTE III

DE MELGAÇO

A "necessidade" deste site se apóia no seguinte:
o discurso órfico é hoje em dia "de uma extrema solidão."
Nunca é tarde para reafirmar, como o faz o autor de Fragments d´un d. amoureux, que esse discurso é falado por milhares de pessoas mas não é sustentado por ninguém; foi completamente abandonado pelas linguagens circunvizinhas:
ou ignorado, depreciado por elas, excluído não somente da Arte, mas também de seus mecanismos.
Quando um discurso é dessa maneira levado por sua própria força à deriva do inatual, banido de todo espírito gregário, só lhe resta ser o lugar, por mais exíguo que seja, de uma "afirmação."
Essa afirmação é, em suma, o que proponho.
Essa afirmação nos indica Otacílio Melgaço como "atopos", um ser inclassificável, de originalidade sempre imprevista.
E seu universo musical? ‘Gribouillette’. Um artista à la Diderot, “inclina teus lábios sobre mim/E que ao sair de minha boca/Minha alma repasse em ti.”
“...como se a própria escuta fizesse parte da ‘enunciação’!" Sobretudo em Melgaço, "é o ouvido que fala!"
Tomando como ponto de partida
Orpheu do Samba,
uma das faixas de Desiderium (primeiro cd do mineiro)
objetivei tê-la como um simulacro de sua silhueta criadora, manifesta e,
simultaneamente,
"maiêuta"
com bem disse o teatrólogo português Gabriel Salgueiro a respeito das atividades artísticas interdisciplinares de Otacílio Melgaço (veja Nota ao final desta página).
Somos contemporâneos e estamos diante de um artista "Órfico",
basta estabelecermos contato com sua estilística.
Os versos de Adélia Prado nos são solidários:
"Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com a boca e mão incríveis tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou viro santa. (...)
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa? (...)
Para o homem com a flauta, sua boca e mãos, eu fico calada.
Me viro em dócil, sábia de fazer com veludos uma caixa.
O homem com a flauta é meu susto pênsil que nunca vou explicar,
porque flauta é flauta, boca é boca, mão é mão.
Como os ratos da fábula eu o sigo roendo inroível amor.
O homem com a flauta existe?"
Tanto é afirmativa a resposta que o cancioneiro de Otacílio Melgaço
inaugura uma das mais belas páginas da
Música Popular Brasileira.

Agradecendo a atenção de todos, convido-os a auscultar O.M.

"No findar da aventura dos argonautas,
quando as sereias começaram a cantar,
Orfeu com sua lira maviosa, pôs-se a fazer o mesmo,
no navio, lutando para manter a atenção dos seus companheiros.
E conseguiu.
Seu canto de vida era mais belo
que o canto de morte das sereias.
Só assim,
Jasão voltou a Tessália com o velocino de ouro e
o trono reclamou - em busca de justiça."

APÊNDICE
O Revisionismo Órfico
em Terras Portuguesas

Orpheu, nome mitológico onde radica o termo orfismo, era no panorama nacional, uma revista trimestral de literatura, destinada a Portugal e ao Brasil e de que veio a lume o primeiro número, em 1915, correspondente a Janeiro, Fevereiro e Março. As 83 páginas da revista, impressa em excelente papel e tipo elegante, abriam por uma «introdução» de Luís de Montalvor, em que se pretendia definir os intuitos da obra a que meteu ombros um grupo de jovens que com frequência se reuniam em alguns cafés da baixa lisboeta.
Segundo Montalvor, Orfeu «é um exílio de temperamentos de arte que a querem como a um segredo ou tormento» e a pretensão dos seus fundadores «é formar, em grupo ou ideia, um número escolhido de revelações em pensamento ou arte, que sobre este princípio aristocrático tenham em Orfeu o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermos».
Quando a guerra de 1914-18 começou, reuniram-se os factores de um movimento estético pós-simbolista em Lisboa. Aí se conheceram, entre outros, Fernando Pessoa, cuja adolescência se formara na África do Sul, dentro da cultura inglesa; Mário de Sá Carneiro, que entre 1913-16 passou grande parte do tempo em Paris; Almada Negreiros e Santa Rita Pintor, que traziam de Paris as novidades literárias e sobretudo plásticas do futurismo e correntes afins. A estas personalidades do grupo atribuiu a opinião pública sinais de degenerescência, mas hoje é fácil reconhecer que as suas atitudes correspondiam a um sentimento geral de crise latente. Particularidades de formação e temperamento, relacionáveis com a instabilidade social, alhearam os artistas, tanto da ideologia republicana como das reacções críticas que ela despertara.
Mário de Sá Carneiro pertence à geração do Orpheu, a revista que, idealizada no Brasil por Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho, pretendia comunicar a nova mensagem europeia, preocupada apenas com a beleza exprimível pela poesia, inspirada no simbolismo de Verlaine, Mallarmé e Camilo Pessanha, no futurismo de Marinetti, Picasso e Walt Whitman, no super-realismo de André Breton. Preconizava a arte pela arte mas ao mesmo tempo a descida a busca ansiosa do «eu» e a fixação da agitada idade moderna.
Em 1914 os jovens modernistas, encetaram seu o projecto que Luís da Silva Ramos (Luís de Montalvor) acabava de trazer do Brasil: o lançamento de uma revista luso-brasileira Orpheu. Dessa revista saíram efectivamente dois números (os únicos publicados) em 1915; incluíam colaboração de Montalvor, Pessoa, Sá Carneiro, Almada, Cortes Rodrigues, Alfredo Pedro Guisado e Raul Leal; dos brasileiros Ronald de Carvalho (que, regressado do Brasil, serviria de traço de união entre o Modernismo brasileiro e português) e Eduardo Guimarães; de Ângelo de Lima, internado no manicómio; de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa. A revista vinha realizar uma aspiração comum dos jovens poetas que se reuniam à volta de Fernando Pessoa no Irmãos Unidos. No Orpheu poderiam publicar as suas peças de escândalo: poesias sem metro, celebrando roldanas e polias, ou revelando as profundezas do subconsciente, sem passar pelo crivo da razão. O primeiro número, saído em Abril de 1915, esgotou-se em três semanas, por uma espécie de sucesso negativo: comparavam-no para se horrorizarem com o seu conteúdo e se encolerizarem com os seus colaboradores. Um destes, Armando Cortes Rodrigues, conta que eram apontados a dedo nas ruas, olhados com ironia e julgados loucos, para quem se reclamava, com urgência, o hospício de Rilhafoles.
Um segundo número sairia em Julho do mesmo ano, com conteúdos bem mais futuristas; um terceiro número foi organizado e mesmo impresso parcialmente, mas não se publicou. Era mais uma revista literária que morria à míngua de recursos. Não bastara o talento e o arrojo dos seus colaboradores para prolongar-lhe a vida; eram os financiamentos de Sá Carneiro (ou antes, de seu pai, que lhos mandava para Paris) que a sustentavam. Uma reviravolta nos negócios, a cessação da mesada, e fica no nascedouro o que viria a ser o Orpheu 3.
Feitos, em parte, para irritar o burguês, para escandalizar, estes dois números alcançaram o fim proposto, tornando-se alvo da troça dos jornais; mas a empresa não pôde prosseguir por falta de dinheiro. Em Abril de 1916, o suicídio de Sá Carneiro privou o grupo de um dos seus grandes valores.
E quem eram os jovens que assim procuravam escapar ao conservadorismo da época? Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Armando Cortes Rodrigues, José de Almada Negreiros, Luís de Montalvor, Alfredo Pedro Guisado e outros cuja actuação foi mais restrita. Ao seu anseio de agitar as inteligências e as sensibilidades, inovando, não faltava um certo desejo de escandalizar, que se exacerbava na medida em que crescia a indignação generalizada: cônscio dessa atitude, o próprio Fernando Pessoa, ao referir-se, já em 1915, a versos seus e ao seu Manifesto Interseccionista, penitencia-se de havê-los feito com a única preocupação de escandalizar, rebaixando, assim, a alta dignidade da poesia. Mas o que não é menos verdade é que todos, ou quase todos, tinham a consciência da grandeza que é ser poeta.
No Orpheu revelaram-se tendências várias, que vão desde a permanência do simbolismo e do decadentismo até às tendências inovadoras como o futurismo. Álvaro de Campos/Fernando Pessoa publica a Ode Triunfal (1915) e a Ode Marítima, Sá Carneiro, a Manucure (1915), Almada Negreiros, O Manifesto Anti-Dantas (1916) e Ultimatum Futurista às Gerações Portuguezas do século XX.
O grupo entretanto continuou a publicar noutras revistas e, em 1917, surgiu a revista Portugal Futurista, onde foram reproduzidos quadros de Santa Rita Pintor e Sousa Cardoso, juntamente com poemas futuristas de Sá Carneiro (póstumos) e Pessoa, sobretudo sob o seu heterónimo de Álvaro de Campos.
No rasto do Orpheu surgiram as revistas literárias Exílio 1916, Centauro 1916, Portugal Futurista 1917, Athena 1924-1925 e Presença 1927-1940, que iniciou o denominado segundo modernismo.
(H.H.)

O.M. desenvolve atividades artísticas em várias áreas como Música, Dramaturgia, Fotografia, Cinema, Literatura etc.
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